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terça-feira, 3 de agosto de 2010

RENÉ DUMONT 1975


Google regista:

1. http://catbox.info/big-bang/gatodasletras/casulo1/DUMONT.HTM
2. http://catbox.info/big-bang/ecologiaemdialogo/admep-1.htm

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1-11-dumont-md-1-4- sexta-feira, 7 de Novembro de 2003- e a entrevista com dumont, onde está, afonso?
1-2 - 75-11-00-ie-ed- encontros e desencontros do afonso-quarta-feira, 23 de Abril de 2003-novo word
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UM TECNO-AGRÓNOMO PARA RECICLAR - RENÉ DUMONT ESTEVE EM PORTUGAL [Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal (por ele dirigido), «Frente Ecológica», Nº 3, Novembro de 1975]

A convite do Ministério da Agricultura, René Dumont esteve em Portugal, andou a ver da Reforma Agrária, disse que sim, disse que não, e, no final de contas, falou com personalidades do meio ministerial, botou sentenças, disse que tínhamos de produzir para não passar fome, etc...
Dumont tornou-se de agrónomo oficial em coqueluche de certos meios ecológicos e ecopolíticos franceses, quando, aqui há ano e meio, em Maio de 1974, alguém teve a ideia de o propor para candidato à presidência da República pelo Partido Ecológico.
Resultou daí que não foi eleito para Presidente da República, como está bem de ver e de prever, resultou daí alguns milhares de votos rapinados ao senhor Mitterrand e resultou daí o sorriso auto-suficiente de muita gente que quando ouve falar de Ecologia pensa isso ter alguma coisa a ver com poluição.
«Utopia ou Morte», título de um livro de René Dumont, herdado do Maio de 68, foi um dos slogans da campanha eleitoral, que se saldou, afinal, por uma propaganda intensiva de alguns postulados ecológicos e a denúncia de alguns escândalos mais escandalosos ficando a opinião pública com um contra-veneno eficaz para fazer face aos venenos dos outros partidos não ecológicos nem pouco nem mais ou menos.
Muita gente, desde então, cá e lá, começou a falar de Ecologia, embora até aí dissessem que não. Não foi agora o Movimento Ecológico Português havido nem achado para a visita do senhor René Dumont mas também não era preciso.
Ninguém nos convidou para um drink com o senhor René Dumont, mas agricultura com pesticida o Movimento Ecológico também não toma.
Há ano e meio aceitou René Dumont o papel de catalisador, mas cada vez mais se verifica que a sua vocação é de agrónomo com  adubos químicos, do que propriamente uma vocação ecológica radical.
Quer dizer: agricultura sem adubos químicos nem pesticidas, agricultura de reciclagem e de fertilizantes orgânicos, agricultura de independência nacional, em suma, não se ouviu. O que o senhor René Dumont preconizou era que continuássemos a importar adubos e pesticidas, pois o petróleo vai aumentar outra vez e outra vez teremos que pagar os adubos e pesticidas mais caros do que ouro.
O que René Dumont veio dizer a Portugal, poderia tê-lo dito qualquer outro especialista da F.A.O., da O.C.D.E. ou do Mercado Comum, quer fossem arrependidos ou não do estilo Sicco Mansholt.
Pouco menos mau ou pior do que Sicco Mansholt, o agrónomo Dumont ainda acredita que a fome será vencida pela cada vez mais violenta violentação das leis biológicas, orgânicas e naturais da ecologia dos solos. Quer dizer: ele preconiza a fartura defendendo a esterilidade e o deserto.
Ecologia foi um ar que lhe deu. Mas René Dumont é, apesar disso, autor de livros respeitáveis onde denuncia a sociedade de consumo e propõe modelos de Economia verdadeiramente revolucionários, quer dizer, de reciclagem.
Em comparação com os doutrinários da F .A.O., Dumont até faz figura de avançado, mas cada vez mais se reconhece nele que a circunstância de ter presidido, em Maio de 1974, à candidatura pelo Partido Ecológico, foi uma circunstância fortuita, efémera. Sujeito de pouca confiança para a Ecologia Radical, bem nos tinha avisado disso o semanário “La Guele Ouverte», quando contestou posições reformistas do mesmo Dumont.
Recomendamos o seu último livro traduzido em português - Utopia ou Morte - desde que seja lido com cuidado e critério de distanciamento crítico. Nem tudo é para desperdiçar nem para deitar no lixo. Reciclemos então...


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CONTRA A ECONOMIA DO DESPERDÍCIO PELA ECONOMIA DA ECONOMIA Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal( por ele dirigido), «Frente Ecológica», Nº 3, Novembro de 1975
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OS TRIUNFALISTAS DA MISÉRIA(*)

(*) René Dumont, O Crescimento da Fome, trad. de Vítor Oliveira, col. «Senso Comum», Editorial Vega, 1977

Ou nos lançamos nos braços dos "tecnocratas competentes", como gosta de dizer o Prof. Delgado Domingos, ou morremos à fome.
Esta parece ser a tese defendida por autores como René Dumont, em livros como «O Crescimento da Fome» recentemente editado em português, como se: de qualquer modo, não acabaremos mesmo por morrer à fome; como se o Terceiro Mundo não tivesse morrido sempre à fome e não continue a morrer; como se estivéssemos agora a nadar em abundância e a miséria fosse algo que nunca por aqui tivéssemos conhecido.
Esse ultimatum, (de que René Dumont se faz eco e alguns outros "tecnocratas competentes", simpatizantes (nas horas vagas) dos ecologistas e dos movimentos ecológicos, só pode ser lançado por uma burguesia farta que efectivamente teme a fome e ser lançada na penúria.

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FOME NO TERCEIRO MUNDO É UM DESASTRE ECOLÓGICO(*)

 EM CADA MINUTO DESAPARECEM VINTE HECTARES DE FLORESTA

 RENÉ DUMONT, CONHECIDO ECOLOGISTA FRANCÊS, QUE SE ENCONTRA EM PORTUGAL, AFIRMA-SE ACTUALMENTE UM MILITANTE TERCEIRO-MUNDISTA

[(*) Este texto de Afonso Cautela, entrevista com René Dumont, foi publicado no jornal «Portugal Hoje», 17-2-1982]

O destino ecológico do Planeta será decidido no Terceiro Mundo.
Esta parece ser a ideia-força de René Dumont, que se afirma um «militante terceiro-mundista», quando lhe perguntámos que laços ainda o ligavam ao movimento ecologista francês.
Para ele, «a fome do Terceiro Mundo é, em grande parte, um desastre ecológico. Ao contrário da mentira que tantos ainda sustentam e que há 10 anos, na Conferência de Estocolmo, tomou foros de cidade - só os países industrializados teriam problemas de ambiente... - o subdesenvolvimento significa para René Dumont o maior atentado não só contra os povos mas também e principalmente contra a Natureza.

«A nossa fartura - diz, referindo-se principalmente à França - é baseada na miséria dos outros.»
Os chamados países «ricos», ao explorar e pilhar os recursos naturais dos colonizados, não só escravizam os povos como destroem os seus ecossistemas.
Para ele, a primeira oposição a estabelecer, para explicar a moderna Mega-Crise, é contra o «colonialismo», do que decorre a palavra de ordem necessária:
«Descolonizar o homem é antes de mais descolonizar a Natureza.»
Este «trota-mundos», em incansável peregrinagem pela Terra dos explorados e espoliados, está em boa posição para denunciar o inimigo principal:
«A ecologia resume todos os nossos problemas, todas as nossas crises», diz ele, pondo fim aos que ainda falam de «combater a poluição» ou em «defender o ambiente».

SEM FLORESTA SÓ HAVERÁ INUNDAÇÕES E SECAS

Ao enunciar os absurdos que explicam o «apocalipse» actual, Dumont torna-se torrencial:
«Em cada minuto, vinte hectares de floresta húmida tropical desaparecem, comprometendo assim uma componente essencial do nosso ecossistema. Dentro de 10 anos na Costa do Marfim, dentro de vinte e cinco na África Central, dentro de trinta na Amazónia, não haverá mais floresta. Com a destruição das florestas do Himalaia, do Nepal e da Índia, aumentam as inundações e as secas, como o pude verificar no Paquistão, no Bangladesh e na Índia.»
Quanto aos climas, de que depende. a produção agrícola, diz este professor de Agronomia:
«Também estamos a degradar os climas: por combustão excessiva de energia fóssil, produção de gás carbónico, radioactividade das centrais nucleares, kripton radioactivo, aumento de poeiras. Os óxidos de azoto atacam a camada de ozono que nos protege dos raios ultravioletas.»

A ALBÂNIA APROXIMA-SE...

Engenheiro agrónomo que se considera (ainda) um tecnocrata, René Dumont defende os adubos e pesticidas como necessários para «alimentar o excesso de população» (em que acredita como bom neo-maltusiano que é...) mas denuncia as monoculturas agrícolas - amendoim, beterraba, palma, algodão, tabaco, café - principais responsáveis pelas catástrofes ecológicas, como a do Sahel, que assolam o Terceiro Mundo.
Os eucaliptos também não escapam à sua crítica. Quando lhe dizemos que Portugal é um enorme eucaliptal, tem um conselho rápido: «Defendam-se.» Mas não falou nas multinacionais da celulose que mandam na gente.
Na Albânia - apesar de «estalinista», diz - há tudo o que é essencial para todos. «A Albânia aproxima-se de uma sociedade ecológica, mas não é ainda a ideal...» E salta com uma das suas obsessões: «Na Albânia não há automóveis particulares, só alguns para altos funcionários e professores universitários...»
Quanto à refinação (de cereais, óleos e outros produtos alimentares, básicos), responsável, em primeira linha, pela fome no Mundo, Dumont é pouco contundente. Admite que, na Albânia há a «possibilidade» de escolher entre pão branco e pão negro...
Quanto ao Biogás - segredo de Polichinelo para o verdadeiro desenvolvimento do Terceiro Mundo - o grande agrónomo da Fome surpreende-nos com uma afirmação insustentável: o biogás fica mais caro do que o petróleo (!!!).

SOU DEMASIADO SOCIALISTA PARA ADERIR AO PSF

Este candidato dos ecologistas à Presidência da República em 1974 pode dar-se ao luxo de fazer afirmações impossíveis de provar. Aliás a «reciclagem» de materiais (tal como a refinação de alimentos) não o entusiasmam por aí além.
Prefere continuar a protestar contra o automóvel particular: «Na Tanzânia, são necessários 6 mil dias de trabalho para comprar um automóvel.»
E insiste: «Se a tendência americana de um carro por pessoa se generalizasse, seria a ruína em 10 anos...»
Apesar deste «bode expiatório», Dumont não se tem cansado de pôr no banco dos réus quem lá deve estar, muito antes do popó: capitalismo, imperialismo, exploração do homem pelo homem têm sido suficientemente denunciados por este ecosocialista confesso, que no entanto diz: «Sou demasiado socialista para poder aderir ao Partido Socialista Francês...»
Explica esta exigência porque «o Governo Mitterrand ainda está muito apoiado na exploração do Terceiro Mundo»...
Declaração de Cancun?: «Só palavras»..., diz ele, e cita o exemplo das minas de carvão fechadas em França, enquanto se exploram as da Mauritânia. Mão-de-obra barata... «A nossa fortuna é baseada na miséria dos outros»... - repete ele, referindo-se à fortuna da França.

O APOCALIPSE DA «GASPILLAGE»

Se a palavra «reciclagem» raramente aparece no seu discurso, já o antónimo - «gaspillage» - é mais frequente. Para Dumont a crise é de «gaspillage» insensata e paranóica de recursos. Com o petróleo barato - sustenta - os países industriais entraram numa verdadeira orgia de desperdício.
O que explica tudo: O petróleo foi assim o grande motor do «buldozer» chamado crescimento que iria arruinando a Natureza e a Terra dos Cinco Continentes.
Subdesenvolvimento é, como diria Josué de Castro, e Dumont também, a outra face deste desenvolvimento, que assim fica totalmente posto em causa.
Um exemplo acabado de subdesenvolvimento é a Guiné:
«Não há fábricas. Mas quando foi inaugurada uma grande fábrica para tratamento de amendoim, fechou no próprio dia em que abriu. Não chegou a funcionar, não havia meios humanos e técnicos... Tecnologia importada dá casos como esse:»
Pedimos-lhe uma palavra de esperança para os que lutam em Portugal por um ecodesenvolvimento e um socialismo de rosto humano. Ele lembra o que foi a campanha da. candidatura ecologista:
«O objectivo desta campanha era primeiro ecologizar os partidos políticos. Efectivamente, depois dela, Mitterrand e Juquin, respectivamente dos partidos socialista e comunista, contactaram-nos.
- «Em Tours, o Partido Comunista apresentou, em Abril de 1976, Vincent Labeyrie, professor de Ecologia, às eleições parciais contra Royer. Mas o objectivo era também politizar os ecologistas, pois não se trata já só de proteger parques, residências secundárias, avezinhas, mas de reinventar toda a nossa civilização.»
Postas as devidas aspas na indevida «civilização», parece-nos uma boa chave para fechar esta conversa com o homem que é e continua a ser um permanente desafio ao Mundo para que ouça a voz do Terceiro Mundo.
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(*) Este texto de Afonso Cautela, entrevista com René Dumont, foi publicado no jornal «Portugal Hoje», 17-2-1982

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RENÉ DUMONT: UMA POLÍTICA REFORMISTA DA NATUREZA (*)

[(*) Este texto de Afonso Cautela deverá ter ficado inédito, para sossego das almas . Vou datá-lo de Julho-1976, número do jornal «Frente Ecológica» onde veio a aludida «Carta à Esquerda Portuguesa», que tenciono scanar ainda hoje, pela tardinha. Vou datá-lo também de Maio-1977, data em que o dito livro foi editado ]

(*) Comenta-se neste artigo o livro « O Crescimento da Fome», de René Dumont, trad.. de Vítor Oliveira, col. «Senso Comum» , Editorial Vega, Maio- 1977


" A monocultura não é forçosamente uma catástrofe, se a cultura foi cuidada e os desperdícios reciclados."
" Na China (...) conhecimentos médicos muito mais precoces e eficazes que no resto do mundo, multiplicam a população." - René Dumont, In " O Crescimento da Fome»

" Convidarei o leitor (...) a reconhecer todos os nossos limites, todos os nossos constrangimentos; e, antes de mais, o da população, de que hesitaremos em pedir a redução maciça." - Eis a pedra-de-toque em que assenta o pensamento de René Dumont, bem como o inventário da pilhagem capitalista contra o Terceiro Mundo a que procede no seu último livro publicado em português, "O Crescimento da Fome" (1977).
Vedeta dos Franceses em Maio de 1974, quando o Movimento Ecológico o propôs para a Presidência da República, René Dumont volta sempre aos assuntos da sua especialidade e predilecção: a agronomia, a fome, o Terceiro Mundo, a pilhagem dos recursos planetários, mas, principalmente, a ameaça do crescimento demográfico como perigo número um da humanidade.
No prefácio deste seu livro sobre “O Crescimento da Fome", levanta ele a questão de fundo logo ao abrir:
«Marx não teria previsto uma série de factores e ocorrências que viriam, portanto - diz Dumont - a por as suas teses não totalmente em causa mas, pelo menos, a revê-las e reequacioná-las em termos diferentes».
Resta saber se todos os factores apontados por René Dumont existem realmente, ou se alguns - como a  explosão demográfica - não passam de sofismas bem engendrados para comprometer e viciar de raiz todos os raciocínios.


METER MALTHUS E JOSUÉ DE CASTRO NO MESMO SACO

Para dar algum crédito à sua tese, seria preciso, por exemplo, que René Dumont demonstrasse quais são os países do Terceiro Mundo "pilhados" pelo Bloco Socialista.
Se existem, quais são eles?
Não encontramos resposta nas obras de Dumont conhecidas em português, que se limitam a fazer o inventário da pilhagem capitalista, como se dele fosse também responsável o Bloco Socialista.
Meter Malthus e Josué de Castro no mesmo saco maltusiano, eis outra tese que Dumont deveria demonstrar.
Que nos lembre, Josué de Castro foi das vozes mais veementes a denunciar o sofisma "maltusiano" da explosão demográfica e foi ele quem disse que fome era causa da explosão demográfica e não o inverso.
Dumont tem um defeito: deixa os truques e sofismas do seu pensamento demasiado à mostra.
"Arruinámos a Índia e o Sahel, que estão hoje esfomeados" - afirma Dumont.
Mas foi ele próprio quem denunciou os "fabricantes" da catástrofe saheliana em 1973: os latifundiários colonialistas que naquelas áreas da África Central plantaram monoculturas gigantescas de colza e amendoim estariam à cabeça dos responsáveis.
Porque não especifica agora os responsáveis pela catástrofe, englobando-nos a todos num vago e abstracto "nós”?

O FRACASSO DA “REVOLUÇÃO VERDE”

Também não hesita na gritante contradição. Ele, defensor intransigente da Agroquímica, verifica e lamenta o fracasso da “revolução verde” :
"As esperanças postas na Revolução Verde na Índia esboroam-se como castelos de areia, e uma ameaça terrível pesa sobre o futuro da Ásia Meridional, que conhece o início de uma das grandes fomes da História."
Mas não foi ele, Dumont, um dos principais defensores dessa ilusão chamada Revolução Verde e seu obreiro Sicco Mansholt?
Não foi ele a acreditar, como os outros tecnocratas da F.A.O., no mito da produção com base em injecções crescentes de adubo químico, pesticida e energia fóssil sob a forma de mecanização acelerada?
Não foi ele, presidente dos ecologistas, a preconizar uma Agroquímica intensiva que é, em grande parte, responsável pelas enormes quebras de produção actuais?
Porque não se confessam, ao menos, os obreiros desses belos planos da F.A.O. para alimentar a fome no Mundo?
Porque se espantam com os fracassos dos próprios métodos que perfilharam?
Porque continuam os prémios Nobeis tipo Norman Borlaug, da F.A.O., a chamar histéricos aos ecologistas que defendem uma bioagricultura intensiva e porque não deixa Dumont, neste seu livro, como nos anteriores, de fazer o constante panegírico de Borlaug e suas teses?
Mas, acima de tudo, René Dumont insiste em tocar a sineta do apocalipse demográfico. A propósito dos climas e suas alterações, com colheitas cada vez mais catastróficas, se há-de pôr no banco dos réus os principais agentes que contribuem para essa alteração climática - guerra meteorológica, explosões nucleares, produção de CO 2 etc.- lá volta de novo ao "perigo demográfico" :
" Tudo isto merece estudos mais aprofundados, porque a ameaça é terrível."
A guerra meteorológica é um facto e uma ameaça aos pobres e famintos do Terceiro Mundo. A população, pelo contrário, é a arma que o Terceiro Mundo tem para lutar contra essas e outras chantagens do mundo imperialista.

CONTRIBUTOS FRANCAMENTE POSITIVOS

Na obra de René Dumont, porém, abundam os contributos francamente positivos e de indiscutível impacto anti-capitalista: a crítica à futurologia tecnocrática de Herman Khan e seu balofo optimismo; o elogio ao sistema agrícola praticado na China Popular.
Com o elogio, embora com restrições, à Bioagricultura de Claude Aubert, seu discípulo, ao considerar suicida uma agricultura totalmente apoiada em injecções crescentes de quimismo e energia fóssil, ao acusar os latifundiários e intermediários de travarem as soluções capazes de impedir uma catástrofe à escala mundial, René Dumont redime-se do exagero que o faz considerar o crescimento demográfico um perigo e a maior ameaça contra a humanidade, logo seguida do esgotamento de recursos, dos quais a água e os fosfatos são, em sua opinião, os mais graves.
A crítica de René Dumont à pilhagem capitalista é muito bem feita. Ele inventaria  contradições, absurdos que fazem desse sistema um inato destruidor da Natureza.
Atribuindo a um regime económico, social e político todas as culpas, deixa-nos, no entanto, com a impressão de que a passagem ao socialismo seria a passagem para o paraíso ecológico.
A escolha de René Dumont para encabeçar e dar autoridade "científica" ao movimento ecológico francês é de facto um óptimo serviço prestado ao sistema Ecosuicida e ao tipo de "civilização", entre aspas, que o movimento ecológico contesta e questiona.

"COM O ANTI-CAPITALISMO É AINDA O CAPITALISMO QUEM GANHA..."
REFORMISMO CONTRA REVOLUÇÃO
CRÍTICA ECOLÓGICA OU CRÍTICA ANTICAPITALISTA?

Atribuindo ao sistema capitalista a culpa quase exclusiva na destruição da Natureza e dos recursos naturais, René Dumont presta um bom serviço à ideologia tecno -cientifista em geral, tal como ela é praticada, a Leste e a Oeste, em sociedades capitalistas e em sociedades anticapitalistas.

Presta um bom serviço à metodologia da ciência estabelecida, da Tecnologia Pesada e das Indústrias Hiperpoluentes.
Presta um bom serviço ao caos da ciência analítica, incapaz de compreender a ordem cósmica do Universo.
Quer dizer: se a passagem ao socialismo vai minorar ( e vai concerteza) algumas das mais gritantes consequências ecológicas do capitalismo, o risco a que René Dumont nos convida é este: cair na ilusão de ficar muito contentes com um sistema que, ecologicamente, é apenas mais prudente, mais lento na destruição, mais diplomático e mais habilidoso na actuação antinatural, não deixando contudo, basicamente, estruturalmente, de se fundamentar na manipulação, alienação e exploração da Natureza pelo Homem.
Quem lê René Dumont e o seu inventário de malefícios, fica com a ideia (necessária mas não suficiente) de que a Natureza é destruída apenas pelo capitalismo - esse inato destruidor da natureza - e que basta socializar os meios de produção para que se viva num paraíso ecológico, onde as leis do equilíbrio ecossistémico serão respeitadas...
Não há dúvida de que o capitalismo é o inato destruidor da Natureza. Com ele não há nada que resista, e por sua culpa a Terra aproxima-se aceleradamente do esgotamento total.
Mas René Dumont e outros eco-reformistas deixam nos espíritos uma ilusão perigosa: minorados os efeitos da poluição, o socialismo resolverá todos os males e desequilíbrios ecológicos...
Era bom que assim fosse, mas temos de reconhecer que socializar não chega para fazer a Revolução. E muito menos fazer críticas anticapitalistas significa ser socialista.
Por isso é que a crítica ecopolítica ou biopolítica à sociedade vai mais longe do que a crítica feita pelo anticapitalismo ao capitalismo; vai até onde esta vai ( estamos todos de acordo com as teses socialistas de René Dumont...) mas vai mais longe e fala da estrutura de todo um sistema caracterizado pela oposição do Homem à Natureza.
Para compreender os remanescentes capitalistas que dão à sociedade anti-capitalista uma fisionomia ainda (muito) pouco ecológica, basta citar o sector-chave dos consumos e dos hábitos; basta lembrar os consumos alimentares de carência por industrialização e os hábitos industriais de refinar, conservar, corar, frigorificar, enlatar, embalar alimentos;
Basta lembrar os consumos supérfluos e a ausência de um princípio revolucionário que indique a hierarquia dos consumos em função de um novo padrão de consumidor, ou seja, em função de um homem não alienado.
Basta lembrar os consumos tóxicos ou venenosos, antibiótico no gado, estrogeno nos frangos, desinfectante no leite, difenil nas laranjas, etc., etc..
Basta lembrar os consumos químicos na vida pessoal e doméstica, na agricultura, na quimioterapêutica.
Basta lembrar as vacinas e os antibióticos.
Basta lembrar, apenas, o sector dos consumos tóxicos e alimentares para ver em que medida um sistema anticapitalista, embora sem a nota de orgia dada no capitalismo pela publicidade, pilha e destrói a Natureza, contamina o ambiente, compromete a qualidade de vida, ameaça a segurança pessoal, aliena as relações do homem consigo próprio, burocratiza as relações do homem com o alimento, submete a natureza às mesmas violências.
Mas o inventário dos hábitos, comportamentos, serviços, acções, anti-ecológicas deve prosseguir: hábitos de caça e pesca como práticas correntes não desportivas mas industriais, onde está aí o socialismo que mude tais hábitos?
As tecnologias de ponta, principalmente as que alimentam o sonho delirante de "melhorar a Natureza" (toda a Biocracia da engenharia genética, da transplantologia, da climatologia, etc) .
A crença supersticiosa no gigantismo do Tupolev, do superadubo, do superpesticida, do superestádio, da superbomba, do super-regenerador atómico, da super bomba de cobalto, do superantibiótico, etc.
O desenvolvimento sistemático de indústrias pesadas (celulose, cimenteira, refinaría, nuclear, etc.) com desprezo absoluto pelas indústrias médias e tecnologias leves;
As maratonas de prestígio entre potências bélico-imperialistas (espacial, atómica, olímpica, etc. ) são prova, entre outras, de que os mitos capitalistas continuam vigentes dentro de sistemas anticapitalistas: crescimento industrial infinito, agroquímica (a terra é um máquina de produzir), medicina (o homem é uma máquina alimentada a calorias), despovoar os campos e superpovoar as cidades, etc..
Os sintomas de universo concentracionário não deixam de aparecer nas sociedades
anticapitalistas: altas taxas nas doenças do consumo do Ambiente, (cancro, cardiovasculares, reumatismo, tensão arterial., diabetes, desmineralizações, alergias, psicoses, toxicoses, etc. ) provam de que a qualidade de vida não é um mito burguês mas uma realidade estatística mesmo entre os antiburgueses.
Se o concentracionário urbano é muito atenuado pelos hábitos anti-capitalistas, não deixa de vigorar o sistema concentracionário de energia e de indústria, sem que se vislumbre ou seja incrementada a descentralização e a diversificação de unidades produtoras.
O desperdício de materiais, lixos, desperdícios, excrementos, etc. é incrementado, sem que se pratique uma política sistemática de Reciclagem e o fomento das tecnologias alternativas.
Eis apenas alguns aspectos específicos de uma crítica ecológica ao Establishment mundial, para lá da crítica já feita por René Dumont e demais anticapitalistas ao Establishment capitalista.
Quer dizer: herdadas do capitalismo e refinadas pelo anticapitalismo, temos ainda uma trintena (?) de práticas que, na perspectiva ecológica, são tão criticáveis como as práticas de pilhagem e chantagem especificamente capitalistas.
Tal como o capitalismo usa estratagemas diversos para prorrogar a sua agonia, eis que o sistema do Desperdício - e seu aparelho ideológico, a Sofística - usa também estratagemas para se manter . Um desses estratagemas é o anticapitalismo, que aparece assim como um eco-reformismo para fazer durar mais (algum) tempo esta morte que (lentamente) nos mata.

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(*) Este texto de Afonso Cautela deverá ter ficado inédito. Vou datá-lo de Julho-1976, número do jornal «Frente Ecológica» onde veio a aludida «Carta à Esquerda Portuguesa», que tenciono scanar ainda hoje, pela tardinha.


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domingo, 8 de fevereiro de 2009

ECOLOGISMO 1979

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CARICATURAS DO ECOLOGISMO(*)

14-7-1979

Entre os remoques que o Ecologista costuma receber, na sua campanha de propaganda em defesa da vida e da natureza, alguns há que são dominantes, permanentes e mais significativos do que  outros.
São os que visam o carácter moral, moralista ou moralizante da pregação ecológica. E a verdade é que – reconheça-se – a moral está totalmente fora de moda.
No riso trocista desses detractores, o Ecologista seria assim  um azedo mestre escola dos antigos, palmatória em riste para castigar os maus meninos que matam passarinhos, um caturra sem remédio, vesgo de indignação e ressentimentos, um pobre maluquinho que se tolera, alguém que, não sabendo apreciar as maravilhas do progresso, as delícias do supermercado, os prazeres da carne , o paraíso nuclear e o conforto dos supersónicos ou das auto-estradas, só lhe resta ir encardindo até envelhecer e morrer .
Defender a vida dos que a matam seria, portanto, ignorar ou suprimir a moral de gozo e prazer em que assenta toda a civilização ocidental.
Com o mito do progresso, do crescimento, do desenvolvimento, do alvo e da meta sempre à frente do nariz, o hedonista teria dominado o Mundo, a Vida e a Natureza, ficando assim o ecologista – seu derradeiro defensor – encurralado no gueto do anacronismo, do ultrapassado, do reaccionário. Um rótulo só lhe caberia:  obcecado dos lixos e das poluições, espécie de risível cruzado ou ridículo quixote à espadeirada com os moinhos do mau cheiro e dos fumos fétidos.
Esta caricatura do ecologismo não é a única mas é talvez a principal . É sintoma muito sensível do ponto que mais doi ao tecnocrata na guerra movida aos ecossistemas.
De facto e no fundo, o que mais incomoda o sistema vigente (com a sua moral de amoralidade) é que o ecologista apareça defendendo a moral universal da natureza e da vida, num tempo e mundo em que, precisamente, a suprema dominante das sociedades, dos grupos, das instituições, das ideologias, é, expresso ou implícito, o amoralismo.
A pretexto estético ou político, por autoritarismo ou anarquia libertária, invocando filosofias ou contra-filosofias, a verdade é que se abriu, no tempo e mundo moderno, uma clareira onde tudo possa ser possível e onde tudo possa ser permitido.
Não é – note-se – ao nível das massas que o amoralismo refina: é ao nível das elites pensantes.

Desaba então a catadupa dos finos argumentos filosóficos: desenterram André Gide e o acto gratuito, tão célebre na época, repescado nos pré e pós-existencialistas, o niilismo arreganha o dente :
São precisamente os neo-espiritualistas que advogam o amoralismo também, desta feita a pretextos vários. A dialéctica yin-yang, não há bem nem mal, o bem e o mal é tudo a mesma coisa, paragem do intelecto, o ego inteligente é uma obstrução ao nirvana, eis o quietismo e a não-violência deixando que tudo continue .
Não há dúvida que o ecologista fica mais só que a solidão.
Implícito ou explícito, o convite à desistência chega de todo os lados, tornando a resistência ecológica cada vez mais ridícula, perseguida, minoritária.
Ética exigente, dialéctica profunda e subtil, terá a resistência ecológica alguma coisa a ver com um renascimento religioso do homem?
Se tiver, é certo então que uma nova religião – a vida, a natureza, a ordem universal – se aproxima para que as novas gerações superem o poço de niilismo onde a morte é a lei. Ainda.
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(*) Este texto terá ficado inédito ou, sabe-se lá, já foi scanado... Intolerável desperdício, então.
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CARICATURAS DO ECOLOGISMO E CRISE DO AMBIENTE(*)

[(*) Este texto foi publicado no jornal «A Capital», «Crónica do Planeta Terra», 15-12-1979]

As tentativas de caricaturar o ecologismo não têm obtido grande êxito: pelo menos entre artistas e pessoas de sensibilidade ou imaginação, as teses «caricatas» que o tecnocrata (quer de esquerda, quer de direita) insiste em manter sobre o ecologista, não logram grande audiência,.
Acusar o ecologista de querer «regressar às cavernas» só porque rejeita ou analisa criticamente o crescimento económico infinito, só porque denuncia mitos, sofismas da ciência, da tecnologia e da indústrias, é uma dessas caricaturas .
Outra caricatura com grande chance de convencer pessoas inteligentes e com alguma sensibilidade artística, é a que traça o ecologisamo inserido em correntes anacrónicas e recuadas da sensibilidade humana: «utopia romântica» seria um dos slogans postos a circular .
Rousseau e o mito do bom selvagem servem então de paradigma para crucificar o ecologista a todos os séculos XVIII dos obscurantismos pré e pós medievais.
Não notam estes moedeiros falsos que é demasiado carregado o traço da caricatura e que a natureza romântica de Goethe, Garrett ou Rousseau tem pouco a ver com a Natureza massacrada e em agonia dos posteriores «séculos das luzes».
É que a exaltação romântica da Natureza tem mais a ver, hoje, com uma elegia de Pascoaes do que com um Hino ao Sol de S. Francisco de Assis. E que a Joaninha dos Olhos Verdes já foi nas enxurradas diluvianas de um Ribatejo inundado pelos crassos erros ecológicos perpetrados sobre todo o território português em geral e sobre as bacias hidrográficas em particular.
A floresta negra dos contos hoffmanianos é hoje uma monocultura industrial de eucaliptos, esse pepino celulósico.

«CIVILIZAÇÃO» ?


Nós, ecologistas, seríamos (a esta lupa) os monges trapistas do século XX, coisa que a mim não me ofende nada, antes pelo contrário, que historicamente é uma fantasia ou falsidade mas que na boca deles significa um  insulto.
Se a Ordem dos Mateiros sonhada por Antero de Quental veio a ter expressão no moderno comunitarismo da não violência gandhiana e se muito tem o ecologismo a aprender com os monges zen budistas e das ordens iniciáticas tibetanas, ou mesmo com os monges das mais austeras ordens religiosas da Europa, é porque o neo-tribalismo da ecologia pobre, hoje, aponta para uma arte de viver comunitária, de austeridade ecológica é certo mas que por isso mesmo desmente os arrobos românticos, utopistas e anarco-individualistas com que nos querem rotular.
Se tecnocrata soubesse ler, aconselhava-o a que se informasse junto do filósofo Gary Snider e da sua interessante tese sobre neo-tribalismo.

Por mais caricaturas, portanto, ora a carvão ora a nuclear, que eles pintem , não há hipótese de colocar o ecologismo, enquanto corrente de sensibilidade, enquanto dialéctica, enquanto movimento de opinião, enquanto diástese de infinitas reacções em cadeia, fora do seu lugar historicamente irreversível na evolução cósmica do homem e da terra, lugar que é o de vanguarda, coração e motor daquela evolução.
Chopin, tossindo, queixar-se-ia em dó menor dos seus males de amor. A queixa, hoje, é pela Terra que sofre. A doença, o absinto, o vício, o desregramento dos instintos (Rimbaud) e outras marcas da sensibilidade decadentista, podem surgir hoje entre alguns ecologistas, ainda confusos entre a doença do Ego e a Doença da Natureza.
Ao marcar posição face às hecatombes modernas (indústria nuclear, apocalipse climático, endemias sócio-psíquicas, guerra de nervos à escala global, férreas tecno-estruturas ou burocracias kafkianas, mistificação sistemática do facto em vez de informação pedagógica,  o ecologista não recua para nenhuma etapa histórica da sensibilidade estética ou do pensamento, da tecnologia, da indústria ou da ciência. Exige e preconiza, face à tecno-barbárie, as tecnologias civilizadas, evoluídas, alternativas e solares da próxima idade do Aquário.

NA LINHAGEM DOS PROFETAS

Todos sabem, hoje, que as civilizações nascem e morrem, tem havido muitas, há subida, apogeu e declínio, enfim, a imagem é de linhas sinusoidais e não de curva exponencial única.
Que totalitarismo é este do europocêntrico? E aviado estava o Mundo se só tivesse havido Europa e seus colonizadores.

O ECOLOGISTA SENTE A DOENÇA DA MÃE TERRA COMO SE SUA FOSSE

Se a decadentistas, niilistas, existencialistas – e outras portas que o ateísmo positivista fechou na nossa cara – era a doença individual que os obcecava e se disso fizeram as suas obras mais ou menos primas, muitas épocas das artes e das letras, o ecologista sofre com a doença, a crise de toda a natureza.
E esse diagnóstico não nasceu do nada (embora ao Nada tivesse conduzido quase todas as correntes estéticas, que no último século se foram sucessivamente auto-suicidando...).
Convulsões estéticas do dadaísmo ao futurismo, do surrealismo ao realismo fantástico, do cubismo ao abstracto são peças do mesmo puzzle auto-crítico, proeza que levou André Malraux a afirmar que só a cultura europeia tinha esse mérito de se auto criticar.
Sintomas da mesma doença, sinais da mesma crise, desembocam todos no estuário poluído, eutrofizado e pantanoso do mundo industrial actual. Mas há uma linha ininterrupta que, na história estética do pensamento, liga pré-socráticos, heresias, feiticeiros da Idade Média, alquimistas, românticos, decadentistas, surrealistas, existencialistas, realismo fantástico, contra-cultura juvenil, contestação estudantil, Maio 68, ovnilogismo...
Se tentarmos um denominador comum na linha da heresia, talvez seja este: o sistema mais ou menos em choque com os ecossistemas.
Para lá das manifestações sectoriais, das lutas e polémicas, dos casos específicos ou regionais, dos micro-climas virados do avesso, dos lagos eutrofizados e dos rios-cloaca, para lá do litoral ameaçado pela invasão oceânica das marés negras e do interior colonizado por monoculturas gigantescas de eucalipto, cártamo, girassol, tomate e (agora também) tabaco ou (daqui a nada) beterraba e algodão, para lá da água que falta (e do ciclo hídrico baldeado) ou da que por estar a mais provoca enxurrada, erosão e assoreamento numa soma de factores que nos pode levar ao dilúvio em dois minutos, para lá da poluição alimentar e da doce demagogia anti-poluição ou defesa do consumidor que engordam (ainda mais) os poluidores, para lá da recuperação, em forma, que o capitalismo está fazendo das tecnologias solares e das eco-alternativas energéticas em geral (porque o socialismo dorme a sono solto quanto a alternativas) para lá dos equívocos ambientalistas, conservacionistas, proteccionistas, etc.
Para lá da má fé deliberada ou da ignorância (que mete os ecologistas no regressismo passadista), a corrente ecologista é, enquanto vaga de fundo da evolução cósmica, essa herdeira recente de uma linhagem (nobre) de profetas, alquimistas, feiticeiros, iniciados, místicos e monges, artistas e filósofos panteístas.
«Prever as grandes linhas do futuro na leitura dos factos do presente à luz das profecias do passado.”
Não há outra maneira de definir ecologismo, por mais caricaturas que pintem.
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(*) Este texto  foi publicado no jornal «A Capital», «Crónica do Planeta Terra», 15-12-1979
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AS CARICATURAS DO ECOLOGISMO: BIBLIOGRAFIA DOMÉSTICA (-BD) (*) OU HEMEROTECA PESSOAL

(*) Este texto auto-contemplativo foi publicado no jornal «A Capital», «Crónica do Planeta Terra », 15-12-1979

Para os que quiserem investigar mais a fundo esta genealogia do ecologismo no fluxo e refluxo das correntes (sociais, de ideias e de sensibilidade artística), esta sinergia das energias, esta subversão de sistemas (instituições) encarregados de destruir os ecossistemas do ecossistema Terra, permito-me relembrar brevíssima bibliografia:

Os Intelectuais e a Ecologia – I – O Preconceito Romântico – In «A Capital» , 5-8-1978 [ não encontro o file mas ia jurar que já o teclei/scanei]

Os Intelectuais e a Ecologia – II – O Preconceito Realista – In «A Capital» , 2–12- 1978 [não encontro o file mas ia jurar que já o teclei/scanei]

As Poluições do Eco-Analfabetismo – In semanário «Extra» (Lisboa) - 20-4-1978
[78-04-20-IE> ]

Movimento Ecológico e Descolonização Cultural – Colecção «Mini-Ecologia» - Nº 8 – Ed. «Frente Ecológica» - Paço de Arcos, 1975

«Questão de Sensibilidade» e «Bárbaro é o que Crê no Progresso» – In «Contributo à Revolução Ecológica» - Lisboa – 1975 [Todo o livro do «Contributo» foi teclado/scanado]

Sobre a função que a arte de vanguarda desempenhou no «renascimento» de culturas, civilizações e formas de vida (ecológicas mas sistematicamente atiradas ao buraco do primitivo pela pata ocidental) apraz-me lembrar um texto de 1970 (14 de Junho) em que tentei anotar, precisamente, onde vanguarda e origens se fundem no universo ecológico. As origens evocam, aliás, a obsessão de originalidade que atormenta tantos artistas e seu umbigo...
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(*) Este texto auto-contemplativo  foi publicado no jornal «A Capital», «Crónica do Planeta Terra », 15-12-1979

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

BOM DIA, EDOUARD

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terça-feira, 26 de Novembro de 2002

KASSEL 80: «PARA UMA ECONOMIA ECOLÓGICA» (*)

[18-10-1980 ] - Segundo nos informa Edouard Kressmann, secretário-geral do movimento Ecoropa, com sede em Genebra, o Simpósio Internacional para Uma Economia Ecológica, realizada em Setembro, pôs em causa, de maneira radical, a capacidade da actual Ciência Económica para resolver os mais urgentes problemas que se põem, quer às sociedades ditas desenvolvidas, quer às que se classificam «em desenvolvimento»

Inflação, desemprego, desintegração social, desperdício de energia e delapidação de recursos naturais, fome no Terceiro Mundo, agravamento acelerado das desigualdades entre Norte e Sul, ricos e pobres: eis alguns dos aspectos que hoje assume a crise mundial e para a qual a ciência económica se mostra cada vez mais incapaz de encontrar soluções e saídas.

Assim se disse em Kassel, na República Federal da Alemanha, nesse simpósio promovido pela Ecoropa, Associação Europeia para Uma Democracia Ecológica. A «expansão contínua», foi o ponto mais criticado pelos sociólogos e economistas presentes, entra os quais se encontram prestigiados representantes da cultura europeia: Denis de Rougemont, Edward Goldsmith (director da revista «The Ecologist», de Londres), Nicholas Georgescu Roegen, Ivan Illich, Manfred Siebker, enfim, um pouco da fina flor da vanguarda mundial.

Entre as conclusões da reunião que alcançaram a unanimidade, esteve a condenação do "desenvolvimento contínuo”, exactamente porque esse modelo não pode resolver nenhum dos problemas anteriormente enunciados. Antes pelo contrário: a história dos últimos dez anos provou que esse «desenvolvimento» entre aspas, agrava todos aqueles problemas em vez de os resolver.

É preciso, portanto, conforme ficou declarado em Kassel, elaborar uma nova estratégia fundada sobre uma nova teoria que leva em conta as exigências naturais da Ecologia.

«EXPANSÃO CONTÍNUA: REVER URGENTEMENTE O TRATADO DE ROMA (ARTº 2.°) »

A reunião de Kassel intitulada “ Para Uma Economia Ecológica”, marca, assim, uma etapa na consciência de um ecodesenvolvimento. Os seus trabalhos revelam uma notável convergência sobre os pontos mais importantes da moderna controvérsia sobre crescimento e recursos, o chamado Produto Nacional Bruto.

No imediato, Ecoropa tomou duas resoluções: uma diz respeito ao Tratado de Roma e lança uma campanha para a revisão do artº 2. deste tratado, que instituía, em 1954, uma Comunidade Económica Europeia: artº 1., tendo por missão, pelo estabelecimento de um Mercado Comum, «promover (...) uma expansão contínua nos Estados que nela estão reunidos» (artº 2.º).

Se esta «missão» podia parecer justificada no imediato após-guerra, os ecologistas europeus consideram que já não acontece assim nos dias de hoje.

A associação Ecoropa, apoiada nas conclusões do encontro de Kassel, fará, portanto, que o Parlamento Europeu, reunido em Estrasburgo, aceite, quanto antes, uma proposta de revisão do Tratado de Roma, de maneira a reorientar a política europeia para uma economia ecológica.

REGIÃO: UNIDADE VITAL DA ECONOMIA

A outra resolução tomada no encontro, diz respeito às Instituições. Parece claro, aliás, que uma tal estratégia, denominada ecodesenvolvimento, só pode ser eficaz com instituições descentralizadas.

A Região - e não o Estado - é o espaço mais favorável à participação cívica e à autogestão, é a unidade vital em matéria social, cultural, política e
económica. É ao nível da região que podemos resolver melhor os problemas postos pela crise, tais como o desemprego, a produção e distribuição de energia, a protecção das águas, a preservação das florestas e dos solos.

A Associação Ecoropa exige, por isso, que as regiões sejam, por toda a parte, dotadas de meios que lhes permitam assumir o seu próprio futuro e que, por outro lado, seja constituído um Senado Europeu
onde elas estejam todas equitativamente representadas. Uma tal instituição constituiria sólido fundamento a uma «democracia ecológica», no quadro de uma federação, não de «Estados», mas de Povos da Europa.

Como se vê, o simpósio de Kassel resolveu ir à raiz dos problemas que condicionam a decadente sociedade industrial.

Já em 1977, o colóquio da Ecoropa recusava, claramente, o crescimento produtivista dos países hiperindustrializados e, portanto, sublinhava já como o artº 2º. do Tratada de Roma era anacrónico ao fixar um objectivo expansionista à C. E. E.

O movimento Ecoropa procura agora estudar o problema a fundo e propor ao Parlamento Europeu uma nova redacção deste artigo, logo um novo objectivo para a C.E.E., que seja compatível com a economia de uma sociedade ecológica.

«ECOROPA »: A ASSOCIAÇÃO PARA O ECODESENVOLVIMENTO

Desde a sua fundação, em 1976, a Associação Ecoropa trabalha para um «ecodesenvolvimento» que ponha termo ao declive de catástrofe para onde nos leva o irracional modelo energívoro do crescimento ilimitado.

Concebida em França, em 1976, a Ecoropa constituiu-se em associação de carácter desinteressado de acordo com o Código Civil suíço e compreende quinze nações europeias. Os seus principais objectivos são os seguintes:

- Estabelecer ligações além-fronteiras no plano da acção e da informação ecológicas e no plano da reflexão fundamental, em grupos plurinacionais e pluriculturais, de modo que a acção e a reflexão sejam mutuamente fertilizadas;

- Precisar os critérios de uma ecossociedade que esteja «em equilíbrio com a natureza e em harmonia com ela própria, uma sociedade de homens e mulheres livres e responsáveis » (artº 2 dos estatutos), sem o que, para retomar os termos de uma comunicarão de Auréllo Peccei à Ecoropa, «a sociedade nuclear se afundará na anarquia e em catástrofes irremediáveis»;

- Realçar a dimensão continental dos problemas ecológicos com os quais se defrontam os grupos locais de defesa;

- Promover modos de produção e um estilo de vida ligados ao que vive e se renova, preservando o património de humanidade - estruturas em que a liberdade e a responsabilidade possam exercer-se , um « ecodesenvolvimento» (de acordo com a expressão lançada por Maurice Strong compatível com esta sociedade e com a sobrevivência da humanidade.

Tais objectivos dizem, certamente, respeito a toda a humanidade. No entanto, os fundadores da Ecoropa julgaram assisado, num primeiro estádio, limitar as suas ambições à Europa, que, para ser fiel à sua cultura, deverá operar uma conversão ecológica à Europa geohumana, que Estados-nações de outra era dominaram.

São seus membros activos, em número limitado, as pessoas cujas contribuições - aliás, benévolas - possam enriquecer a obra comum. Os simpatizantes podem ser mantidos informados por um boletim de ligação (dirigir-se ao secretariado).

Em resumo, a Ecoropa esforça-se:

- Por apoiar as iniciativas e os grupos empenhados no terreno, dentro do respeito da sua autonomia, da sua especificidade e da sua diversidade;

- Por expressar e tornar conhecidas as suas exigência e os seus projectos comuns:

- Por constituir um lugar de encontro no qual, em solidariedade com outros povos do planeta e com as gerações futuras, as pessoas se exortem e se confortem mutuamente na recusa do catastrofismo e na difícil elaboração de uma sociedade em que se possa ainda .. VIVER BEM.

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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado, com este título, no jornal «A Capital», Crónica do Planeta Terra, 18-10-1980

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

HÁ JÁ 26 ANOS

ecorealismo-12> publicado ac 1983 – 5 estrelas – subsídios para a história da ideia ecológica – entre-partidos – lista de itens de ecologia humana
sábado, 13 de Julho de 2002

REALISMO E UTOPIA NO DEBATE DOS ECOLOGISTAS EM PORTUGAL(*)
+ 8 PONTOS

9/6/1983 - O colóquio sobre "Ecologia em Portugal" que José Luís de Almeida e Silva orientou em Leiria, no âmbito da III Semana do Filme Ecológico que o Teatro da Columbina leva a efeito nesta cidade, teve o mérito de projectar o debate numa onda pouco habitual neste país.

É caso para nos congratularmos quando, como aconteceu, a conversa é, ao menos, colocada em pressupostos correctos, independentemente dos desvios que depois irá sofrer no aceso da contenda.

Discutir ecologia sem cair nos lugares-comuns, estereotipos e cassetes da anti-poluição, defesa escutista da vida selvagem, política de saneamento básico, em suma, os eco-equívocos e eco-palermices em que o nosso meio de confusões tem sido fértil, é um progresso importante. Devemos assinalar, com regozijo, o facto, quando alguém anima um debate propondo a análise ecológica do sistema industrial vigente e as consequências advindas deste sistema para a alienação humana.

I

É de questões fundamentais como esta que se ocupa o ecologismo e não das frivolidades que tantas vezes os ignorantes lhe atribuem. Só queria assinalar neste artigo os pontos em que o discurso de José Luís de Almeida e Silva (na linha , aliás, de algumas correntes de grande preponderância europeia) se demarca de um realismo ecológico que, desde há 10 anos, nos temos esforçado por pensar e definir, na "Frente Ecológica" (jornal, edições, etc) com a rara e preciosa ajuda de dois irmãos em S. Francisco: Ivan Illich e Michel Bosquet/André Gorz.

Gostaria , pois, que este artigo fosse não só um contributo de boa fé à "elevação" do diálogo sobre Ecologia entre nós, mas também uma homenagem ao José Luís de Almeida e Silva que, na sua tribuna da "Gazeta das Caldas", tem ajudado a elevar esse diálogo e aos que, embora numa linha de eco-utopia que já foi a minha e hoje não é, me ajudaram por contradição dialéctica, a passar de uma concepção moral, literária e romântica da ecologia para uma concepção realista. E não garanto que tenha havido progresso...

II

A análise ecológica não promete paraísos e amanhãs que cantam aos trabalhadores, como faz a demagogia sindical dos políticos e a demagogia política dos sindicatos.

Recusando a utopia de esquerda (anarco-comunista?) tanto como a utopia de direita (a uniforme paz dos cemitérios), o realismo ecológico da análise energética apenas pretende mostrar factos e os factos são, num sistema que vive de auto-multiplicar as suas próprias contradições para infinitamente se perpetuar, desmascarar estas contradições junto da opinião pública até que um dia todos percebam que, para solucionar os graves e grandes problemas que afligem a humanidade, basta fazer uma hora de greve geral universal planetária ao absurdo, à irracionalidade e à mentira mortal do sistema vigente. Até que um dia todos percebam o que hoje apenas alguns (ecologistas chamados) denunciam.

III

Inflação, desemprego, proletarização - são fenómenos que decorrem em linha recta do sistema instalado de produtivismo gratuito, que gira sobre si próprio num acto colossal e aberrante de masturbação planetária. Mas esses sintomas são não só efeitos da engrenagem tecno-burocrática do crescimento exponencial mas - e esta é a descoberta do realismo ecológico - condição sine qua non para que o sistema mantenha as engrenagens fabris em acção.

Todos os partidos em cena continuam, portanto, a sua piedosa obra de gerir o sistema, corpo gangrenoso dentro da sociedade. O realismo ecológico decorre da alienação como facto fundamental. Facto historicamente datado, a alienação ou proletarização é consequência do desenraizamento provocado pela chamada "revolução industrial" (que foi o princípio da grande Reacção), pelo assassinato que o sistema fez, e continua fazendo, dos ecossistemas rurais e valores de convivialidade/liberdade a eles ligados. A massificação está na massa do sangue da revolução industrial , da proletarização por ela sub-produzida e pelo desequilíbrio cidade/campo que origina todos os outros desequilíbrios.

IV

Poluição, desemprego, proletariado e lumpen-proletariado, inflação, angústia, solidão, criminalidade, suicídio, neurose, macrocefalia, bairros da lata, arranha-céus do Dallas-Abecasia, deserto de cimento armado, violência latente nas relações, divórcio, traumatização da juventude, droga, - tudo isto são sintomas mas - e isso é que é trágico - são condições necessárias e sine qua non para que o diabólico sistema da engrenagem industrial continue laborando e...garantindo postos de trabalho.

Trabalhamos todos para a nossa Morte, é o que é, e ninguém melhor para gerir esta patuleia do que os partidos, à esquerda e à direita de Deus Padre Todo Poderoso.

V

A análise ecológica da engrenagem visa para lá dessa contingência crítica - crise é a palavra mais frequente nos ideólogos do desenvolvimento, já que foram eles que a fabricaram - mas sem ignorar a génese histórica deste "complô" em que doença, cancro, poluição, inflação, desemprego, congestionamento, ruído, loucura, desprezo pela pessoa humana, solidão, ódio e até luta de classes não são erros corrigíveis pela técnica (sic) num futuro mais ou menos próximo mas factores intrínsecos ao próprio sistema que tem, na exploração do homem pelo homem apenas o antecedente histórico da manipulação do homem pelo homem, aquilo a que aqui, no realismo ecológico, tenho chamado "o homem cobaia do homem", tema específico da análise ecologista, já que mais ninguém lhe pega nem sequer percebe.

De facto este é um dos pressupostos específicos do realismo ecológico, que o demarcam de outras correntes do ecologismo mais viradas para o discurso moral e morigerador, para a exaltação do desejo e da subjectividade, para a utopia fourierista que assumia a utopia como palavra de ordem e até como programa político.

Que a utopia se viva como discurso literário, até como exaltante movimento estudantil-juvenil (Maio 68), talvez não venha mal ao mundo. Que imperceptivelmente se substitua a ou identifique com um discurso político, é que me parece um reforço da confusão que interessa aos partidos gestores da crise (são todos) alimentar.

VI

Recentemente este discurso idealista assumiu em Portugal a forma requintada do moralismo oportunista, a coberto de um poderoso aparelho totalitário. Belicistas defendendo a paz, violentos a proclamar não-violência, desenvolvimentistas a preconizar eco-desenvolvimento, adeptos da indústria hiper-poluente a fingir que querem um mundo solar, nuclearistas mascarados de geradores eólicos, aí está a farsa em cena.

O discurso moralista é, por definição, hipócrita. Mas a verdade é que a utopia à maneira de Maio 68 oferece o flanco não só a esses oportunismos de burocratas armados em defensores da natureza como se desarma ideologicamente frente aos exércitos de deserdados que cada vez gritam mais alto por justiça e pelo fim da opressão chamada proletariado.

VII

A luta de classes há muito que se engloba numa luta mais vasta de vida ou de morte entre gerações (as de hoje contra as de amanhã), a luta que os grandes blocos do holocausto nuclear neste momento movem ao Planeta e à Humanidade.

Esta engrenagem não é fundamentalmente criticável só porque e quando atafulha as pessoas e a sua alegria de viver com toda uma quinquilharia de consumos e subprodutos da engrenagem consumista - ponto onde José Luís polarizou a sua análise - esta engrenagem é criticável, na perspectiva do realismo ecológico, porque dizendo que desenvolve está, logo ao lado, criando sub-desenvolvimento, agravando injustiças sociais, fomentando o desemprego e a falta de habitação, enfim, auto-reproduzindo-se até ao infinito.

Na perspectiva do meu realismo, o que está em causa é a engrenagem que causa essa sintomatologia de alienante escravidão, a ideologia do desenraizamento, a grande conspiração contra a Terra e os homens da Terra. Não é porque abarrota de consumos uma classe (privilegiada) ou um país que esta engrenagem é desumana e criminosa: é porque tudo isso é feito fabricando, logo ao lado, miséria e morte e destruição. Desenvolver tem sido, afinal, destruir.

VIII

Do eco que esta tendência ecologista a que chamo realismo da frente tem tido entre os compatriotas e outros amigos da terra, escusado será dizer que não vale a pena falar: no deserto continuarei ladrando até que me farte. Sintoma significativo de que não consigo estar sintonizado com os meus compatriotas, é o teste que lhes fiz, há bem pouco tempo, com mais uma iniciativa ( à partida falhada) das minhas. Um prémio de Resistência Ecológica, cujo regulamento já mostrei a vários grupos e personalidades, ou nem sequer resposta mereceu, ou foi recebido com um encolher de ombros ainda mais eloquente. Irei continuar a ladrar no deserto?
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(*) Publicado no semanário «Gazeta das Caldas», 9/6/1983 ☼